INTRODUÇÃO

Em 2008, foi publicado, no Brasil, pelo Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva (INCA), em parceria com a Sociedade Brasileira de Oncologia Pediátrica (Sobope), o primeiro documento sobre câncer em crianças e adolescentes que apresentou o perfil de morbimortalidade desse grupo. Essas informações desdobraram-se em diferentes análises e abordagens que contribuíram para trazer o tema à discussão, ampliando o conhecimento da realidade brasileira e levando à consequente melhoria da qualidade das informações, à valorização dos registros de câncer e ao reconhecimento da importância do monitoramento, da análise e da divulgação dessas informações.

Incorporam-se, nesta nova publicação, as informações sobre adultos jovens, que, juntamente com os adolescentes, constituem um grupo negligenciado e, portanto, com piores chances de diagnóstico e tratamento em tempo oportuno. Amplia-se também a análise de morbidade hospitalar, evidenciando o perfil da assistência por grupo etário, sexo e doença, utilizando as classificações específicas para crianças, adolescentes e adultos jovens.

O câncer em crianças e adolescentes (de 0 a 19 anos) é considerado raro quando comparado com o câncer em adultos, correspondendo entre 2% e 3% de todos os tumores malignos registrados no Brasil. Portanto, deve ser estudado separadamente por apresentar diferentes locais primários, origens histológicas e comportamento clínico. Há uma tendência de que o câncer em crianças e adolescentes apresente menores períodos de latência, pois costuma crescer rapidamente e tornar-se bastante invasivo, porém responde melhor à quimioterapia. A maioria dos tumores pediátricos apresenta achados histológicos que se assemelham aos tecidos fetais nos diferentes estágios de desenvolvimento, sendo considerados embrionários. Essa semelhança às estruturas embrionárias gera grande diversidade morfológica resultante das constantes transformações celulares, podendo haver um grau variado de diferenciação celular. Por essa razão, as classificações utilizadas nos tumores pediátricos diferem das utilizadas nos adultos, sendo a morfologia o principal aspecto considerado.

Os adolescentes e os adultos jovens (de 15 a 29 anos) compreendem uma faixa etária intermediária entre a oncologia pediátrica e a oncologia de adultos com um espectro de diferentes tipos de câncer. Existem muitas controvérsias em relação à faixa etária que deve ser considerada como adolescente e adulto jovem e ainda não há consenso sobre qual o limite de idade para se classificar esse grupo em relação ao câncer. O padrão da incidência de câncer entre adolescentes e adultos jovens é diferente tanto da criança (de 0 a 14 anos) quanto do adulto. Nesse grupo etário, existe uma transição dos tipos histológicos pediátricos para os subtipos histológicos de adulto, por isso a classificação utilizada para adultos por local primário não é apropriada. Portanto, o agrupamento pela morfologia, utilizado em pediatria, segundo a Classificação Internacional do Câncer na Infância (Cici), ainda necessita de adaptação para atender às singularidades desse segmento etário.

Em 1987, a Agência Internacional para Pesquisa em Câncer (Iarc, do inglês, International Agency for Research on Cancer) propôs uma classificação, descrita por Birch e Marsden, modificada para os tumores pediátricos. Essa foi modificada em 1996 por Kramarova e Stiller, e, em 2005, foi atualizada em sua terceira edição, com pequenas modificações baseadas nas mudanças da Classificação Internacional de Doenças para Oncologia, também em sua terceira edição (CID-O3). Nessas catalogações, foram incluídos os tumores do Sistema Nervoso Central (SNC) benignos. Em 2002, Birch et al. propuseram uma classificação para adolescentes e adultos jovens, reorganizando alguns grupos de tumores já encontrados nas classificações utilizadas para tumores pediátricos, visando a uma melhor adequação para essa referida faixa etária.

A estimativa realizada pelo INCA, para o Brasil, prevê a ocorrência de 12.600 casos novos de câncer em crianças e adolescentes até os 19 anos para o ano de 2016. As Regiões Sudeste e Nordeste apresentarão os maiores números de casos novos, 6.050 e 2.750, respectivamente, seguidas pelas Regiões Sul (1.320 casos novos), Centro-Oeste (1.270 casos novos) e Norte (1.210 casos novos). No Brasil, em 2014, ocorreram 2.724 óbitos por câncer em crianças e adolescentes (de 0 a 19 36 anos) (INCA, 2015). As neoplasias ocuparam a segunda posição (7%) de óbitos de crianças e adolescentes (de 1 a 19 anos) em 2014, ultrapassadas somente pelos óbitos por causas externas, configurando-se como a doença que mais mata nessa faixa etária (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2014).

A avaliação da incidência, da mortalidade e da morbidade hospitalar é importante para o conhecimento do perfil de câncer e a efetiva vigilância para a ampla utilização das informações a fim de que essas se transformem em ações efetivas para o controle do câncer em crianças, adolescentes e adultos jovens.

A incidência é conhecida utilizando-se informações dos Registros de Câncer de Base Populacional (RCBP), que, por meio de um processo contínuo e sistemático de coleta de dados, armazenam todos os casos novos de câncer que ocorrem em uma população definida, de uma determinada área geográfica. Hoje, no Brasil, existem 31 RCBP implantados e, desses, 25 disponibilizaram informações que contribuíram para o estudo da incidência por câncer em crianças, adolescentes e adultos jovens.

O percentual mediano de neoplasias foi de 2% na população infantil (de 0 a 14 anos) e 3% na população de crianças e adolescentes (de 0 a 19 anos). Assim como na maioria das populações, também foi observada a maior frequência de leucemias em ambos os grupos (de 0 a 14 anos: 33,2%; de 0 a 19 anos: 25,6%). No grupo etário de 0 a 14 anos, observa-se que os tumores do SNC já representam a segunda posição (16,0%), seguidos dos linfomas (13,7%). Na faixa etária de 0 a 19 anos, a segunda posição é ocupada pelo grupo XI da Cici – outras neoplasias malignas epiteliais (14,1%) –, seguida pelos linfomas e os tumores do SNC (13,6% e 13,3%, respectivamente). A mediana das taxas médias de incidência ajustadas por idade, para a faixa etária de 0 a 14 anos, foi de 126,65 por milhão, e de 139,99 por milhão para de 0 a 19 anos, apresentando pico etário de 1 a 4 anos e de 15 a 19 anos.

No grupo de adolescentes e adultos jovens (de 15 a 29 anos), o percentual mediano de neoplasias foi de 4,3%, valor um pouco menor que o da literatura mundial. O grupo dos carcinomas foi o mais frequente (34%), seguido dos linfomas (12%) e dos tumores de pele, incluindo melanomas e carcinomas (9%). A mediana das taxas médias de incidência, ajustadas por idade, foi de 236,16 por milhão, sendo de 241,74 por milhão para o sexo feminino e de 212,71 para o sexo masculino.

As informações sobre mortalidade são obtidas por meio dos atestados de óbito, passando por um processo de codificação, tabulação e divulgação por meio do Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIM), do Ministério da Saúde. Essas informações são mais acessíveis e disponíveis para o estudo das condições de saúde de uma população. No Brasil, entre as causas de óbitos de crianças, adolescentes e adultos jovens, o câncer representa a segunda causa de morte. A faixa etária de 15 a 19 anos mostrou ser a que apresenta o maior risco de morte no país. A faixa etária de menor risco foi encontrada no grupo de 5 a 9 anos. As principais causas de morte por câncer até 29 anos são as leucemias, os tumores do SNC e os linfomas em ambos os sexos. No Brasil, no período de 2009 a 2013, a taxa média de mortalidade ajustada por idade foi de 32,07 por milhão na faixa etária de 0 a 14 anos e de 44,25 por milhão na faixa etária de 0 a 19 anos. Nesse último grupo, a faixa etária de 15 a 19 anos mostrou ser a que apresenta o maior risco de morte no país, especialmente para o sexo masculino. A faixa de menor risco foi encontrada no grupo de 5 a 9 anos.

Para os adolescentes e adultos jovens, a taxa média de mortalidade ajustada por idade foi de 66,97 por milhão. Destaca-se o câncer do colo do útero na faixa etária de 25 a 29 anos no sexo feminino como principal causa de mortalidade por câncer.

A morbidade hospitalar por câncer, cujas informações são provenientes dos Registros Hospitalares de Câncer (RHC), tem como principal objetivo auxiliar o aprimoramento da assistência ao paciente, a pesquisa de base clínica e a educação médica e prover subsídios às atividades administrativas. A informação produzida em um registro hospitalar reflete o desempenho do corpo clínico na assistência prestada ao paciente com câncer. Para esta publicação, a análise das informações foi possível em razão dos 271 RHC terem enviado suas bases de dados para o IntegradorRHC.

Os tumores infantojuvenis (de 0 a 19 anos) corresponderam a 2,8% de todas as neoplasias informadas. Os tumores classificados nos grupos I e II da Cici – leucemias, doenças mieloproliferativas e doenças mielodisplásicas (30,6%) e linfomas e neoplasias reticuloendoteliais (16,6%) – foram os mais frequentes, responsáveis por 47,2% do total de casos. Em terceiro lugar, apresentaram-se os tumores do grupo III – do SNC e neoplasias intracranianas e intraespinhais (9,3%) –, seguidos das neoplasias do grupo XI – outros neoplasmas malignos epiteliais e outros melanomas malignos (9,1%).

Para o grupo de adolescentes e adultos jovens, as maiores frequências foram observadas para os carcinomas (com exceção de pele), que representaram 38,4% dos casos, seguidos por linfomas, com 18,3%, e leucemias, com 10,9%. Juntas, essas três neoplasias somaram 67,6% do total de casos de câncer nos adolescentes e adultos jovens.

A distribuição dos casos por Região dos RHC mostra que as Regiões Sudeste, Nordeste e Sul concentraram a maior proporção de casos. As menores proporções foram observadas nas Regiões Norte e Centro-Oeste.

De modo geral, para todos os tumores, o percentual de casos de câncer de adolescentes e adultos jovens (de 15 a 29 anos), por Região do RHC informante, assemelha-se ao descrito para os tumores infantojuvenis: as Regiões Sudeste, Nordeste e Sul concentraram a maior proporção, enquanto as Regiões Norte e Centro-Oeste concentraram as menores proporções, respectivamente.

Mantendo o compromisso do INCA na disseminação do perfil do câncer no Brasil, espera-se que esta publicação seja utilizada como ferramenta fundamental de vigilância que, a partir das informações dos RCBP, do SIM e dos RHC, subsidie as iniciativas do controle do câncer em crianças, adolescentes e adultos jovens.

Copyright © 1996-2018 INCA - Ministério da Saúde
Praça Cruz Vermelha, 23 - Centro - 20230-130 - Rio de Janeiro - RJ - Tel. (21) 3207-1000
A reprodução, total ou parcial, das informações contidas nessa página é permitida sempre e quando for citada a fonte.
Gerenciado pelas divisões de Comunicação Social e Tecnologia da Informação